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21 FEV
[Eutanásia: Capelão hospitalar fala sobre a importância da assistência espiritual]

Eutanásia: Capelão hospitalar fala sobre a importância da assistência espiritual

 

Padre Bento Viana, capelão do Hospital São Rafael, fala em entrevista sobre a eutanásia e sua vivência com enfermos.
 

“Nada nem ninguém pode de qualquer forma permitir que um ser humano inocente seja morto, seja ele um feto ou um embrião, uma criança ou um adulto, um velho ou alguém sofrendo de uma doença incurável, ou uma pessoa que está morrendo.” É o que diz parte da Declaração sobre a Eutanásia, divulgada pelo Vaticano em 1980, sobre o posicionamento da igreja católica frente ao assunto. 

A eutanásia é definida como a conduta pela qual se traz a um paciente em estado terminal, ou portador de enfermidade incurável que esteja em sofrimento constante, uma morte rápida e sem dor. No Brasil, prevista em lei, é tida como crime de homicídio.

Países como Nova Zelândia e europeus Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Suíça, Suécia, Alemanha, Áustria, Dinamarca, França, Hungria, Noruega e República Checa autorizam alguma forma de suicídio assistido. E nesta semana o Parlamento Português decidiu por descriminalizar a eutanásia e o suicídio assistido. Eutanásia é o mesmo que causar a morte de um paciente terminal, a pedido dele, respeitando-se uma série de condições. Já a morte assistida, é o auxílio para a morte de uma pessoa, que pratica pessoalmente o ato que conduz à sua morte.

Diante da evidência do assunto nos últimos meses, a igreja católica tem se posicionado veementemente através de declarações dos papas e de comunidades católicas espalhadas por todo mundo.  

Para conversar sobre o assunto, o Fé Católica entrevistou o Padre Bento Viana, terceiro padre nomeado Capelão do Hospital São Rafael de Salvador, ao qual tem contato diário e direto com os enfermos e seus familiares, prestando assistência religiosa. 

Fé Católica (FC) - Qual a importância do apoio religioso no ambiente hospitalar?
Padre Bento Viana (PBV) -
Creio que seja da maior importância. Os hospitais, aliás, foram criados, especialmente no Ocidente, pelos cristãos que, seguindo os ensinamentos de Jesus, socorria a todos, indistintamente, sobretudo os pobres e doentes. Considerando que o ser humano é constituído de corpo, alma e psique, há sempre de se ter um olhar integral sobre o mesmo, procurando sempre atende-lo sob esses diversos aspectos. A assistência religiosa num hospital está diretamente associada ao paciente, mas também aos seus familiares e a toda a equipe multidisciplinar de saúde. Todos se beneficiam desse suporte que faz com que se transcenda o ato de cuidar e o valor inestimável da Vida desde a sua concepção até o seu ocaso.

FC - De que forma o capelão ajuda o paciente?
PBV -
O Capelão é aquele que organiza a assistência religiosa num hospital, contando, sempre que possível, com a ajuda de voluntários que constituem a Pastoral da Saúde, estendendo assim o seu raio de atuação.
O Capelão, assim como qualquer membro da Pastoral da Saúde deve, antes de tudo saber escutaro paciente, ou seja, perceber qual a sua demanda naquele momento. Nem sempre o paciente deseja falar ou até rezar. Às vezes, a presença já é o bastante para confortá-lo e isso, já é uma forma silenciosa de oração.
É claro que o Capelão está sempre munido de três preciosos sacramentos para o fortalecimento espiritual dos pacientes: a Confissão, a Eucaristia e a Unção dos Enfermos. Eles exercem um papel fundamental no fortalecimento da fé dos pacientes, confortando-os nos momentos difíceis e, muitas vezes, ajudando a se preparar para o enfrentamento de casos irreversíveis e/ou para encontro definitivo com o Senhor. 

FC - Em processo de fim de vida, como procede a relação entre padre, enfermo e família para a aceitação da situação? 
PBV -
Normalmente, deve haver nos hospitais um time chamado de Cuidados Paliativos que tem por finalidade acompanhar pacientes com esse perfil de terminalidade. Esta equipe deve ser capaz de estar atenta às demandas do paciente e familiares em todos os aspectos, inclusive espiritual. O Capelão deve ser acionado a compor esse time, naquilo que lhe é próprio, ajudando de forma conjunta no desfeche natural do paciente. 

FC - Qual a sua visão sobre a eutanásia?
PBV -
A minha visão é a visão de fé, a visão da Igreja em relação a este assunto. Vejo a eutanásia como um crime contra a vida. A Sagrada Escritura é clara ao assinalar que a vida é um dom de Deus e só Ele tem o poder para dá-la ou tirá-la.
A Igreja rejeita também a distanásia, isto é, a obstinação terapêutica, aplicada a pacientes que já não têm esperança de recuperação e são submetidos a complexa aparelhagem, donde resulta inútil sofrimento.
A Igreja, defensora da vida desde a sua concepção até o seu ocaso, defende a ortotanásia que tem o sentido de morte “em seu tempo certo”, ou seja, “morte pelo seu processo natural”, sem abreviações nem prolongamentos desproporcionais ao processo de morrer.

FC - Como o padre/capelão lida quando o enfermo tem preferência a eutanásia? O senhor já vivenciou essa experiência?
PBV -
Não, graças a Deus nunca me deparei com esta situação. 

FC - Em processo de fim de vida, como procede a relação entre padre, enfermo e família para a aceitação da situação? 
PBV -
Normalmente, deve haver nos hospitais um time chamado de Cuidados Paliativos que tem por finalidade acompanhar pacientes com esse perfil de terminalidade. Esta equipe deve ser capaz de estar atenta às demandas do paciente e familiares em todos os aspectos, inclusive espiritual. O Capelão deve ser acionado a compor esse time, naquilo que lhe é próprio, ajudando de forma conjunta no desfeche natural do paciente. 

FC - O acompanhamento religioso nos hospitais é feito através de pedidos do paciente e/ou família ou capelão faz visita por iniciativa própria?
PBV -
O acompanhamento é feito quer seja através de pedidos dos pacientes e ou familiares, bem como das visitas realizadas por conta própria do Capelão e dos membros da Pastoral de Saúde. Há hospitais onde os pacientes e acompanhantes são informados sobre a disponibilidade da Assistência Religiosa, bem como das atividades realizadas por esta no âmbito do hospital.

FC - Nos conte um pouco sobre sua experiência como capelão do Hospital São Rafael
PBV -
São quase 13 anos de muito aprendizado e gratidão. Ser Capelão em um Hospital como o São Rafael, fundado pelo sacerdote italiano, Dom Luigi Maria Verzé, que por sua vez já havia edificado o grande Hospital São Rafael, de Milão, faz uma diferença muito grande, tendo em vista todo o arcabouço filosófico que norteou a criação e manutenção desta instituição. Baseado em princípios genuinamente cristãos, Dom Luigi estabeleceu o Hospital sob o mandato evangélico “ide, ensinai e curai”, tendo sempre como centro do processo o paciente, visto invariavelmente em sua tríplice dimensão bio-psico-espiritual. 
Desde o princípio, o hospital sempre contou com a presença marcante do Capelão que assistia aos pacientes, familiares, funcionários e moradores dos arredores, sempre chancelados pela Arquidiocese. 
Como terceiro capelão, dei continuidade a todo um excelente trabalho realizado por meus antecessores, trabalhando em período integral tanto na assistência aos referidos públicos, das celebrações eucarísticas realizadas diariamente, participando também da Coordenação da Pastoral da Saúde, Coordenação do Movimento Medicina Sacerdócio, da Integração de Novos Colaboradores, do Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital etc.
Os contatos pessoais com os pacientes, sobretudo, os em paliação, especialmente oncológicos, adultos e infantil, são sempre desafiadores, exigindo dedicação, discernimento, equilíbrio e fé. Como capelão hospitalar, puder viver mais intensamente a tensão escatológica que aprendemos na teologia entre o “já e o ainda não”, o sentido cristão da dor e do sofrimento, a contínua necessidade da vivência das virtudes da fé, da esperança e da caridade, o valor inestimável da singularidade de cada paciente, a fugacidade do tempo, o insondável Mistério de Deus. 
O contato com os familiares, sempre marcado pela esperança, apreensão, medo, incerteza, revolta e gratidão. Aprender a acolher, sem julgar e aos poucos, procurando ser um sinal de consolação.
O contato com os colaboradores, sempre muito rico de aprendizagens em relação aos cuidados relacionados à saúde e à nossa contradição humana, ora marcada pelo “complexo de deus”, ora, pela clareza da limitação diante do mistério da natureza humana. Conheci profissionais incríveis do ponto de vista técnico-científico, assim como grande almas humanas.